Bola da cabe?a aos p?s
O Andr? tem 10 anos. Vive com os av?s, perto do mar. Tem um olhar vivo, num corpo franzino. ? bom aluno na escola, gosta de aprender e de estar com os amigos. Mas tem uma paix?o maior do que todas as outras: o futebol.
O av? do Andr? diz que ele n?o larga a bola de futebol durante o dia todo. "Parte-me tudo l? em casa, d? cabo das plantas, dos vasos, dos vidros e das outras coisas que se ponham ? frente da bola."
O Andr? joga sozinho, em casa, horas a fio. Joga com os amigos na escola. Joga com os colegas de equipa no clube onde treina. Tem aquilo a que os mais velhos chamam "jeito", parece ter nascido para jogar ? bola. O treinador do Andr? diz que ele tem uma intui??o rara para o futebol, que ele pensa e age mais depressa do que os outros; o av? chama-lhe "vis?o de jogo".
O Andr? tem aquela caracter?stica que distingue os craques (embora ele possa nunca chegar a ser um...pelo menos daqueles que vemos na TV): parece jogar na ponta dos p?s, flutuar em vez de correr, acariciar a bola no lugar de lhe bater.
E no entanto ? t?o franzino e aparentemente fr?gil: as suas pernas parecem incapazes de chutar com for?a ou resistir a uma entrada mais dura. Mas mesmo assim, corre sem parar, finta, passa e chuta para marcar, sacrifica-se pela equipa, luta para ganhar, sempre infatig?vel. O que n?o quer dizer que n?o chegue ao fim dos jogos estafado. O av? diz que ele podia jogar melhor se n?o se cansasse tanto por andar sempre a jogar ? bola: no quintal, na sala, no quarto, na escola, na rua. Em todo o lado com a bola nos p?s e um sorriso no rosto.
N?o ? poss?vel dizer se o Andr? vai ser jogador de futebol profissional. H? tanta coisa que acontece na vida. Mas d? um prazer t?o grande v?-lo a jogar...e ele tem s? dez anos. ?s vezes faz rir ver a suas fintas curtas e desconcertantes, a forma como domina docilmente bolas que caem pesadas e quadradas vindas de p?s mal jeitosos. "Parece o Zidane", afirmam com admira??o os seus colegas quando o v?em amansar uma bola dif?cil como se fosse a coisa mais f?cil e natural do mundo. E para ele ?.
?s vezes, fico a imaginar o Andr? no seu dia a dia: abra?ado ? bola quando dorme, aos chutinhos pela rua a caminho da escola, a fintar os colegas no jogo do intervalo grande, a voltar para casa cansado com a bola debaixo do bra?o, mas a antecipar j? uns toques depois de lanchar e uns golos entre as duas ?rvores do quintal a seguir ao jantar.
Sei bem porque ? que me ? t?o f?cil imaginar tudo isto: eu tamb?m fui assim e de certa maneira cont?nuo a ser. N?o passo o dia com a bola nas m?os ou nos p?s (porque n?o posso), mas ela n?o me sai da cabe?a. Por isso fiz do futebol a minha profiss?o, pensando, estudando e escrevendo sobre ele. ?s vezes canso-me, porque para mim parece n?o haver exist?ncia para al?m dele. Mas no dia seguinte, tudo volta a ser como sempre foi e o mundo a rodar como uma bola de couro.
N?o fui jogador de futebol profissional - h? tanta coisa que acontece na vida...- e n?o tenho amargura por isso. Joguei sempre por prazer e com amigos. E se calhar isso ? ainda melhor do que jogar (tamb?m) por dinheiro. Nunca fui um dotado como o Andr? - provavelmente n?o seria suficientemente bom para jogar "a s?rio" - mas a paix?o, a intui??o para o jogo e uma competitividade feroz sempre compensaram a falta de habilidade nata e de vista (sempre vi mal...). Assim vivi tantos momentos de felicidade absoluta com a bola nos p?s e um sorriso no rosto.
Agora o futebol traz-me, finalmente, alguma amargura: a idade n?o perdoa e as les?es tornam-se uma praga. Parece claro que tenho que ter a coragem de arrumar as botas um destes dias - porque jogar devagar e sem for?ar n?o me chega...Talvez esteja na hora de viver o futebol atrav?s do Andr? e de outros como ele, enquanto treinador de crian?as. Porque tirar o futebol da minha cabe?a ? t?o dif?cil como tirar a bola dos p?s do Andr?.
Posted by JNC
at 12:49 AM GMT