Li h? pouco tempo que o FC Barcelona estava disposto a investir milh?es na compra do passe de um jovem futebolista argentino de 12 anos.
Ao ponto a que as coisas chegaram. O futebol entrou numa fase de mercantiliza??o profunda, de verdadeira escalada econ?mica, que tem posto em perigo de forma arrepiante a sua pr?pria identidade. Apenas se procura potenciar o lado mais espectacular, sempre muito rent?vel (ainda um dia o futebol vai ser um pretexto para se venderem pipocas, como j? acontece com o cinema de Hollywood...), deixando de lado muitos dos verdadeiros adeptos e valores tradicionais do jogo.
Como diz S?rgio Pami?s, no pref?cio da sua biografia de J. Cruyff, "perdeu-se o limite econ?mico...(...) entrou-se numa espiral muito perigosa (...) em que se fala cada vez mais de dinheiro, patrocinadores, direitos de imagem, publicidade, rentabilidade, intermedi?rios, superavit e deficit, e cada vez menos de futebol e dos seus valores."
O que me preocupa ? como o neocapitalismo dominante se apoderou do nosso jogo - uma das formas culturais fundamentais da Modernidade - e o colonizou transformando-o em seu servo. O sucesso e o rendimento s?o palavras que dominam o pr?prio jogo e a sua conceptualiza??o e organiza??o. E a responsabilidade ? de todos os agentes.
- Clubes que programam pr?-?pocas para vender camisolas e treinos
- Clubes que "compram" jogadores para vender camisolas, mesmo que para isso cheguem ao c?mulo de s? adquirir avan?ados centro ou extremos direitos.
- Jogadores que passam mais tempo a viajar para ac??es de publicidade do que a treinar.
- ? FIFA e ? UEFA s? falta matarem os jogadores com tantos jogos e tantas competi??es diferentes.
- As selec??es nacionais jogam encontros disparatados (ou contra equipas de amadores ou em particulares que fazem parte de contratos publicit?rios).
- Jovens de todo o mundo (incluindo africanos, sul americanos) s?o tratados como gado, trazidos para a Europa enquanto s?o promessas e abandonados depois quando n?o evoluem segundo as expectativas.
- Os jogadores chegam atrasados de f?rias, demonstrando uma total falta de respeito pelos clubes ques lhes pagam principescamente e pelos adeptos que os idolatram
- Os adeptos continuam a considerar inaceit?vel a derrota, a descarregar em cima dos ?rbitros a sua frustra??o, a considerar os advers?rios como inimigos, a querer a vit?ria a todo o custo, a contribuir para um clima de guerra geral.
- Os ordenados dos craques atingiram valores exorbitantes, inaceit?veis: n?meros de 2002 apontavam para aumentos salariais na ordem dos 300 por cento em Inglaterra e It?lia, com n?meros perto dos 200 por centos noutras Ligas, isto entre 1997 e 2002. Nesta altura existiam clubes com deficits de 100 por cento entre receitas e despesas.
- Os clubes falam em conseguir atrair novos adeptos mas esquecem-se dos antigos, aqueles que deixaram de ir aos est?dios e aqueles que est?o prestes a deixar de o fazer (num pa?s com est?dios novos, temos 5000 espectadores em m?dia em cada est?dio da Primeira Divis?o)
- Os clubes tratam genericamente mal os seus adeptos mais fieis (quase sempre os menos favorecidos), reservando uma grande parte dos est?dios e dos melhores lugares para os box offices, para os convidados dos patrocinadores, para os VIP e outros amigos.
Hoje em dia, quando se acha aceit?vel e at? genial que chegue ? conclus?o, e que se propale aos sete ventos, que o Benfica ? acima de tudo uma MARCA - uma grande marca - procura-se tornar natural este processo de quase total mercantiliza??o do futebol, estabelecendo que a principal rela??o que existe ali ? entre um consumidor e um produto. Por isso se diz que o futebol ? uma ind?stria e para isso temos que ter bons espect?culos.
Do que se esquecem estes industriais do futebol ? que o mais importante da rela??o entre os ind?viduos e este jogo s?o as lealdades, a identifica??o entre os adeptos e os clubes, os sentimentos e emo??es que dessa rela??o nascem e se desenvolvem durante toda uma vida, quantas vezes uma heran?a de pais para filhos e por a? fora...
Para animar um pouco este quadro negro, duas hist?rias de humor e esperan?a:
Um modesto clube das ligas amadoras inglesas, o St Albans City, recusou em 1993 uma apelativa possibilidade de subir de escal?o porque foi exigido ao clube que cortasse duas ?rvores - uns carvalhos antigos - que existiam no seu est?dio, por detr?s de uma das balizas. As condi??es eram claras: se o St. Albans quisesse participar na referida Liga as ?rvores tinham que desaparecer. A competi??o come?ou sem o St. Albans, mas as ?rvores continuaram no mesmo s?tio. At? hoje.
Num dos seus v?rios livros sobre futebol, o soci?logo Anthony King, conta um epis?dio ocorrido em 1995 num debate entre o ent?o director executivo do Newcastle United, Freddie Fletcher, e um membro de uma associa??o de adeptos do clube ingl?s, Kevin Miles. Perante a insist?ncia dos adeptos em estarem representados na direc??o do clube, pretens?o que este rejeitava, Fletcher utilizou como argumento o facto de os consumidores de um centro comercial n?o estarem representados na sua administra??o. Ao que Miles lhe respondeu que os consimidores dos centros comerciais n?o passam os seus dias a pensar, ler, a discutir, a viver, os seus centros comerciais, nem t?o pouco t?m camisolas, bandeiras, cachecois dos mesmos.
Posted by JNC
at 12:47 AM GMT
Updated: 07/01/2005 12:52 AM GMT